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História Factual da Dança Artística em Cadeira de Rodas

Não nos foi possível determinar o marco zero do surgimento da modalidade, mas nossos estudos dá indícios que ele se deu, ao mesmo tempo, em diversos países, em decorrência dos movimentos históricos tanto da dança quanto das pessoas com deficiências. Também não há um único local específico de onde possa partir as nossas observações históricas. Assim, a busca pelo mapeamento do quadro histórico/simbólico da dança em cadeira de rodas, a ser aqui apresentado, trará à tona momentos da história factual que contribuíram para a compreensão do surgimento e crescimento desta modalidade.

Em 1930, nos Estados Unidos a bailarina Marian Chace,  estabeleceu uma metodologia de dança que permitia aos dançarinos desenvolverem sua autoconfiança e auto-estima, liberando-os das amarras que inibiam seus movimentos. Era uma forma de terapia, através da dança. Ao perceber a importância de sua iniciativa, Marian decide experimentá-la num meio mais amplo. Inscreve-se como voluntária na Cruz Vermelha, para atuar no Departamento de Psicodrama e trabalhar com pessoas com deficiência.  Com essa iniciativa formaliza-se a dança terapia como parte dos trabalhos de terapia ocupacional. Anos mais tarde, Marian deixa de ser voluntária e, em 1944, é contratada para dar continuidade ao trabalho. (ALBRIGHT, 1977).

Semelhante a esta proposta de trabalho de dança terapia, em 1980 foi criada pela professora Anne Riordan do Departamento de Dança Moderna da Universidade de Utah a Companhia de Dança Sunrise, que era composta de pessoas com deficiência. (SHERRIL, 1998).

Seguindo seu curso na história, a dança moderna, fonte de inspiração para a dança em Cadeira de rodas, quebrou com o conceito de unicidade de movimento e
passou a instigar uma proposta criativa.

Inspirados nesses preceitos, em  1979, dois  dançarinos da cidade de Eugene (Oregon) (Karen Nelson e Alito Alessi) fundaram a Joint Force Dance company. O propósito da companhia  era desenvolver uma técnica de dança baseada na proposta do coreógrafo Steve Paxton que busca  novas formas de movimento a partir do apoio físico mútuo que se dá entre os dançarinos. (ALESSI, 1997). O trabalho da Force Dance Company consiste, então, em laboratórios geradores de movimentos, a partir do contato de dois ou mais corpos, usando princípios de peso, fluência e confiança, dentre outros.

A partir de 1982, com o propósito de promover discussões acerca dessa proposta, o diretor artístico da companhia, Alito Alessi, desenvolveu o projeto Dancehability (Possibilidades de dança) e, através dele, passa a organizar o evento Internacional Breitenbush Contact Improvisation Teachers and performers Conference (Encontro Internacional de Breitenbush sobre o Ensino de improvisação, Contato e Conferência de artistas), que reúne profissionais, estudiosos e artistas. (Idem, 1997). Esse encontro contribui para aumentar os estudos sobre  as diversas possibilidades de movimento da dança,  instigando indagações e  mudanças paradigmáticas.

Em 1988, no decorrer de mais um workshop do Dancehability, Alessi conhece Emery Blacwell, que trabalhava com a expressão artística para pessoas com deficiência física. Do encontro dos dois resulta a inclusão de um workshop nos futuros eventos do Dancehability, no qual pessoas com deficiências e não deficientes são estimuladas a trabalharem conjuntamente, no sentido de descobrirem suas possibilidades corporais. (Idem, 1997). Essa proposta rompeu fronteiras e chegou até nós, no Brasil, influenciando alguns grupos que foram posteriormente criados aqui.

A Force Dance veio pela primeira vez ao Brasil, no período de 03 e 04 de abril de 1997,  ocasião em que apresentou o espetáculo Rodas da Fortuna durante o evento Semanas da Dança, promovido pelo Centro Cultural São Paulo. A abordagem  trabalhada pelo grupo, sem dúvida, trouxe contribuições significativas para o desenvolvimento desta modalidade no pais. A definição de uma proposta de dança com seus componentes  estruturais, que possibilita o fazer movimentos, encorajou grande parte dos grupos brasileiros que, durante a estadia da Companhia no Brasil, participaram  dos workshops ministrados por seus coreógrafos. Os encontros aconteceram na AACD – Centro de Reabilitação de São Paulo (05 e 06/04/97) e no CEPEUSP  (11, 12,13/04/97), registrando assim o primeiro contato internacional com  a  dança  em  cadeira  de  rodas. (PONZIO, 1997 a 1997b).

Na Europa, os motivos geradores do que constituiu o percurso histórico  da Dança em Cadeira de Rodas, com freqüência, envolvem uma fatalidade. Este é o caso na criação do CandoCo Dance Company. Em 1973,  Celeste Dandeker,  bailarina da London Contemporary Dance Theater, sofreu um acidente durante uma  apresentação em Manchester,  fraturou uma das vértebras e ficou paraplégica.  Alguns anos depois, ela conheceu Adam Benjamin,  um coreógrafo que estudava a possibilidade de integrar bailarinos de diferentes condições físicas no “Mike Healffey Centre”. Juntos, eles passaram a ministrar vários workshops, na Inglaterra, sobre a possibilidade da dança para pessoas com deficiência. Dessa iniciativa surgiu, em 1991, a Companhia  CandoCo Dance. (MAGIOLO, 1996; CHARMAN, 2000).

O CandoCo apresenta em seu trabalho uma mescla interessante de estrutura, o desenvolvimento de uma linguagem muito própria de movimentação, oferecendo  aos olhos da platéia um deslocamento daquilo que é o lugar-comum do dançarino, colocando o espectador frente a frente com o desvio corporal.

Essa companhia esteve no Brasil, em 1996, a convite do SESC Ipiranga, apresentando o espetáculo “A cross, your Heart”. (Idem, 2000).  Na ocasião, também realizou workshops para os interessados na atividade. Em novembro de 2002  o mesmo grupo retornou ao país, para participar do I Congresso Internacional do Very Special Arts, realizado na capital mineira,  Belo Horizonte. Nessa oportunidade, o  grupo apresentou seu novo trabalho e ministrou alguns workshops, na cidade de Belo Horizonte e  Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Seguindo o fluxo de busca e criação de novas possibilidades de movimentos, tem-se a história da americana  Mary Verdi-Fletcher, que nasceu com espinha bífida, mas, já desde criança, inconformada com sua condição, se questionava: “Como eu poderia fazer os mesmos movimentos de dança ou como eu poderia fazê-los diferente?” As reflexões e experimentações de Mary, com o apoio dos pais – que eram professores universitários, levaram-na a desenvolver uma  técnica própria e, depois, criar também sua própria companhia, a Dancing Wheels.  (ULE  MELINDA, 1993).

Em 1989, a Dancing Wheels propôs à renomada Cleveland Ballet Company a  unificação das duas companhias. Não é conhecido os argumentos que fundamentaram a proposta, o certo, porém, é que em setembro de 1990 foi criando o Cleveland Ballet Dancing Wheels, constituindo-se uma companhia que privilegiava as habilidades performáticas das dançarinas com deficiência física.

Nesse movimento crescente e inovador, base criadora da modalidade, é perceptível que o corpo de dança em cadeira de rodas vai se construindo através de uma  inscrição baseada nas particularidades de cada grupo. É possível observar que a própria dança em cadeira de rodas está se constituindo por uma multiplicidade quanto ao uso do corpo que a executa. Os estilos variados permitem um novo jogo de imagens e  abordagens temáticas. Cada performance apresenta uma lógica própria.

Assim como nos Estados Unidos e na Europa, no Brasil, os grupos de dança foram surgindo de iniciativas próprias por diferentes profissionais, quase ao mesmo tempo. O Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, por exemplo, possui um programa de Atendimento à Pessoa Portadora de Deficiência, que  há anos, desenvolve um grande número de atividades para pessoas com deficiência.

Em 1990, nessa Universidade, inspirado no trabalho com modalidades esportivas em cadeira de rodas  desenvolvido no programa já mencionado, surge a proposta de se realizar a dança em cadeira de rodas.

O trabalho foi  realizado no decorrer de 05 anos por Eliana Lucia Ferreira e orientado por Apolônio Abadio do Carmo. O grupo de dança que se formou,  Grupo Ázigo, teve a oportunidade de participar de vários eventos nacionais, apresentando-se inclusive no Festival de Dança de Joinville.

Um outro trabalho que merece destaque é o de Rosangela Bernabé. Influenciada pelo método “Contact Dance Improvisation” desenvolvido pelo dançarino norte-americano, Alessi, já mencionado acima, a fisioterapeuta, em 1988 – atendendo ao anseio de uma criança com deficiência, que buscava superar os limites que essa condição lhe impunham –  começa  uma proposta de trabalho com a dança. Como resultado, em 1991, criou-se o Grupo Giro, que existe ainda hoje e se apresenta em eventos artísticos.  (BERNABÉ, 2001b).

Quase ao mesmo tempo, foi também criado o grupo Cia. Limites, formado por 16 dançarinos com e sem deficiência. O grupo é coordenado pela bailarina Andréia Bertoldi e o trabalho, desenvolvido no Teatro Guaíra, em Curitiba/PR.  Seu desenvolvimento é baseado na “Progressão Qualitativa do Movimento”.

Confirmando a força dessa tendência propulsora da participação de pessoas com deficiência em atividades artísticas e esportivas, foi criada no Brasil, em 1990 a Very Special Arts – VSA,  filiada ao Kennedy Center for the Performing Arts. Seu objetivo, o de divulgar os trabalhos culturais de pessoas com deficiência. Esta associação não governamental, composta por comitês estaduais e municipais, dedica-se anualmente à organização de eventos que possibilitam a apresentação e divulgação de diversas modalidades artísticas dentre as quais está inclusa a dança.

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte é um outro centro difusor de conhecimento e de troca de experiências nesta modalidade. A partir de 1995, através do curso de Especialização realizado pelo Departamento de Artes, em parceria com o Hospital Universitário, iniciou-se um projeto de extensão em Dança, para as pessoas com deficiência. Este trabalho culminou com  o surgimento da companhia Roda Viva Cia. de Dança. A metodologia aplicada para o desenvolvimento do trabalho foi  baseada no Método Dança-Educação Física, desenvolvido por Edson Claro.  (AMOEDO, 2001).

No Brasil, tanto a produção científica nesta área, quanto a formação de grupos de dança têm se mostrado crescente desde 1991, quando ocorreu a primeira publicação. Uma pesquisa por nós realizada, em 1996, revelou a existência de 09 grupos de dança em cadeira de rodas no Brasil. A mesma pesquisa foi repetida em 2001 e, por ela, constatamos a existência de mais de  30 grupos, no território nacional (FERREIRA, 2002b). Na academia, embora o número de dissertações de mestrado sobre o assunto seja ainda pequeno, a sua ocorrência mostra o interesse por parte de pesquisadores. A tendência natural é o crescimento desse interesse, sobretudo, porque os questionamentos sobre o desenvolvimento da dança em cadeira de rodas têm aumentado em muitos países

Na Inglaterra, em fevereiro de 2002, ocorreu o Congresso Dancing Differently. Esse congresso foi um fórum que privilegiou a luta pelo reconhecimento da diferença e a necessidade de abertura de espaços na área da dança. (MATOS, 2002).

No Brasil,  estas reflexões foram marcadas com a realização do I, II e III Simpósio Internacional de Dança em Cadeira de Rodas, organizados em  2001, 2002  e em 2003.  (FERREIRA, TOLOCKA, 2001; 2002).